sexta-feira, 18 de março de 2016

Comparada à montanha russa política e econômica no Brasil, House of Cards parece brincadeira de criança.

Após apenas três dias de grandes protestos de rua pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff, e menos de duas semanas após a condução coercitiva e 4 horas de depoimento do ex-presidente lula, de legalidade questionável, ele está prestes a voltar de forma espetacular ao governo como ministro, um Super Ministro.

Esse é a única jogada de xadrez que restou em meio a uma crise política/econômica sem precedente.  Previsivelmente, ela sofrerá acusações de todos os lados - de ter abdicado em favor de Lula, enquanto Lula será acusado de se esconder da operação Lava Jato, que já duros dois anos.

Lula e sua protegida Dilma tiveram dois encontros do tipo tudo ou nada, face a face, terça a noite e quarta de manhã, discutindo os termos detalhados da sua reentrada. De inicio, Lula aceitaria o posto no governo apenas se ele pudesse ser ministro de estado – responsável pela articulação política; ele então faria parte do núcleo duro que realmente decide as coisas em Brasília.

Mas, de acordo com um ministro, que pediu anonimato, surgiu a sugestão de Lula como Ministro Chefe da Casa Civil – o posto ministerial mais importante em Brasília

O que é certo é que Lula está perto de se tornar um tipo de “Primeiro Ministro”- implicando que teria carta branca para mudar drasticamente a cambaleante política econômica de Dilma e, a força, reconectar o PT à sua grande base social, que está sofrendo bastante com cortes nos gastos sociais. Se Lula conseguir o feito – e é um grande “se”- ele também estará perfeitamente posicionado como candidato às eleições presidenciais em 2018, para o desespero do complexo direita-mídia-velhas elites.

O próximo papel de Lula, institucionalmente, será combinar a coordenação de medidas para reiniciar o crescimento do Brasil, ao mesmo tempo em que realinha a base do governo no Congresso, notadamente corrupto. Ele estará imune à operação Lava Jato – mas ainda poderá ser investigado no Supremo.

O retorno triunfal?

A tarefa de Lula é nada menos que Hercúlea.  Quanto capital político ainda possui o ex-político mais admirado no mundo (Obama: “Esse é o cara”) está aberto a muitos questionamentos. Mesmo um leve rumor da possibilidade de Lula ser um “primeiro ministro” foi o bastante para derrubar a Bolsa de Valores e fazer a cotação do dólar subir de novo. Sua luta com a deusa Mercado será uma luta de titãs.

Lula sempre deu preferência a um orçamento equilibrado e a credibilidade do governo. Por exemplo, quando ele chegou à presidência lá atrás em 2003, ele colocou no comando do Banco Central o ex-empregado do Banco Boston Henrique Meirelles e imediatamente iniciou um ajuste fiscal, enxugando gastos e controlando a inflação.

Lula não é contra ajuste fiscal em si – o que o Brasil precisa muito; o problema é o ajuste hesitante de Dilma, que foi duro com as classes C, D e E, incluindo um ataque ao seguro desemprego. Lula é essencialmente contra as classes trabalhadoras serem punidas em excesso – o que apenas deprime a economia ainda mais. A prova é que o que ele fez em 2003 foi a coisa certa – e parte de um plano longo e calculado – é que o Brasil estava crescendo a 7,5% em 2010.

Um monstro de mídia tão efetivo quando Bill Clinton nos seus dias de glória, Lula também irá entrar em modo relações públicas sem descanso – algo que o governo Dilma simplesmente não domina. Quando no poder, ele sempre explicava suas políticas em termos simples, por exemplo incentivando as pessoas a irem às compras e a usarem crédito que seu governo estava fornecendo. Mas esses são os bons e velhos dias; hoje há um ambiente tóxico de não consumo, não investimento e não crédito.

Assim, Lula deve trazer (Henrique) Meirelles – um queridinho de Wall Street – de volta ao banco Central. Ele já adiantou que reformas profundamente impopulares são essenciais se o Brasil quiser ter de volta sua competitividade.

Todos os olhos na Suprema Corte

Lula de volta não está apenas prestes a virar o tabuleiro político de cabeça pra baixo; ao invés disso vai torná-lo ainda mais imprevisível. O complexo hegemônico judicial-políco-midiático-econômico-velha mídia estava gritando pelo impeachment de Dilma ainda na semana passada. Agora ninguém sabe como seria o Brasil pós-impeachment.

Sob a atual conjuntura, o impeachment de Dilma – que ainda não foi acusada formamente de nenhum ilícito – se traduz num golpe branco.  Um dos primeiros atos do “primeiro ministro” Lula, um negociador mestre, ao tomar posse do tabuleiro, seria oferecer – o quê mais- uma solução negociada para a crise, o quê implicaria que esse governo permanece, incluindo o vice Michel Temer, cujo partido é o PMDB, atualmente aliado ao PT.

Em paralelo, o Procurador Geral da República Rodrigo Janet já reuniu informações sobre o candidato que perdeu as últimas eleições presidenciais, direitista e líder da oposição Aécio Neves, que dentre outros feitos mantém uma conta bancária ilegal em Liechtenstein no nome da própria mãe. Ele está prestes a ser completamente investigado

O PGR - baseado na delação do Senador Delcídio do Amaral – está se preparando para investigar um grupo de milhares, do ex e atual vice de Dilma, Michel Temer a Aécio e o atual ministro da educação.

Ao mesmo tempo, a operação Lava Jato (altamente política e digna de enredo de filme hollywoodiano) vai manter toda sua artilharia mesmo que seus principais alvos (Dilma impetrada e Lula na cadeia) fiquem mais difíceis de pegar. Sua estratégia chave é clara; intimidar virtualmente todo mundo. Os procuradores federais por trás da Lava Jato querem destruir qualquer possibilidade de um consenso político em Brasília – mesmo ao preço de mergulhar o Brasil numa recessão ainda pior, combinado com uma guerra civil.

Também está claro que a sem Suprema Corte brasileira conter a miríade de excessos da Lava Jato, existe zero possibilidade de o Brasil emergir dessa grave crise política/econômica.

Nesse meio tempo o impeachment entra em modo “Walking dead”. Institucionalmente, o processo demoraria no mínimo 45 doas. Esse é todo o tempo que Lula teria para costurar um grande acordo, ao provar ao PMDB que o governo Dilma se tornou economicamente viável.

Antes da volta de Lula, se referindo a ofensiva contra Lula, Dilma e o PT, o historiador Paulo Alves de Lima me contou que “estamos ás portas de um novo estágio de uma contra revolução em curso, de uma democracia ainda mais restrita, dolorosamente grávida de arrogância e violência institucional. Estamos mais próximos a um Pinochet, do que ao ideal de neoliberalismo de Milton Friedman. Estamos à beira de um Fascismo de massa, algo que é uma grande novidade no Brasil.”.

O fantasma de Pinochet, da direita tomando o poder tal qual ocorreu no Brasil em 64 e no Chile em 73, pode ser parcialmente exorcizado – por enquanto. Mas não se enganem: os próximos dias podem ser épicos. O Juiz Sérgio Moro, o Elliot Ness da Lava Jato, aliado ao império midiático das organizações Globo, não vai poupar munição para prevenir um acordo político em Brasília mediado por Lula. Isso significaria não apenas Lula como primeiro ministro, mas presidente – de novo - em 2018. A guerra total começa agora.


texto de Pepe Escobar, publicado originalmente em
http://www.counterpunch.org/2016/03/17/prime-minister-lula-the-brazilian-game-changer/